Na beira do Vale do Jequitinhonha, sob o ar rarefeito das chapadas e vales, repousa a Fazenda Terra Estranha — um pedaço de mundo onde o cabacinha respira tradição, história e sabor. É ali que José Alves molda, com mãos firmes, o queijo que leva o nome da região: queijo cabacinha – nascido da terra, forjado no calor dos pequenos currais e nas ventanias das serras.

Desde pelo menos os anos de 1950, o cabacinha é presença nas barracas da BR-116: queijo que atravessava distâncias sobre rodas e paus, para aparecer nos lanches das estradas e nas cozinhas dos viajantes. Hoje, José produz a forma moldada à mão — uma cabaça — e mantém viva essa memória do queijo de estrada.

José Alves é sergipano da cidade de Itabaianinha. Seu pai veio pra Joaíma-MG na década de 70 através do comércio de gado. Ele começou a produzir leite em 2001. “Fazia tipo mussarela para enviar para São Paulo e Sergipe. Em 2009 dois vizinhos, José Gontijo e Elizabeth Sampaio, me incentivaram a fazer a receita. Eu fui com eles ao lançamento do programa “Cabacinha com Qualidade do Jequitinhonha” na cidade de Pedra Azul MG, em 2010. Desde então faço somente Cabacinha e vi a possibilidade de ser um produtor legalizado”, disse ele.

Ele sonha com o selo “arte” para comercializar cabacinha em todo o Brasil — uma ambição que caminha junto da reivindicação de identidade e patrimônio.

Pastos rotacionados e fabricação manual

A Fazenda Terra Estranha está em uma área de Chapada com Vales chamada de Boqueirão, no município de Joaíma no Vale do Jequitinhonha MG, em uma altitude entre 700 e 800 metros e temperaturas amenas. O rebanho de 50 vacas girolandas, 40 em lactação, vive em pastos rotacionados (sequeiro e irrigado), com suplementação.

Cabacinha da Terra Estranha. Produção de leite e queijo artesanal com preservação da floresta nativa.

Elas produzem em média 500 l de leite por dia, metade transformada em queijo e o resto vendido para laticínio. “Acho complicado aumentar a produção porque o cabacinha é moldado à mão, precisaria contratar mais um funcionário”. A fazenda tem 293 hectares, somente 10 ha para produção de leite. O resto é pecuária de corte (100 ha), eucalipto (50 ha), reserva legal (50 ha) e pastagens para reforma (73 ha). 

As vacas se alimentam também de palma.

“Através da interação com outros produtores em grupos de Whatsapp, participei de três edições do Prêmio Queijo Brasil, conquistando medalhas de ouro, prata e bronze”, conta Juscelino.

Território delimitado

O governo de Minas anunciou, em setembro de 2021, quatro novos municípios – Divisópolis, Ponto dos Volantes, Joaíma e Jequitinhonha – como produtores do cabacinha do Vale do Jequitinhonha (veja mapa). 

Mapa do queijo Cabacinha. (Profissão Queijeira)

O reconhecimento do território do queijo Cabacinha foi trabalho da Emater-MG, que em 2010 começou o dossiê que fundamentou a delimitação, em 2014, dos municípios de ​​Pedra Azul, Medina, Cachoeira do Pajeú, Comercinho e Itaobim como os primeiros territórios do queijo. “Isto é motivo de esperança para nós, que queremos comercializar nosso queijo em todo Brasil” disse José Alves dos Santos, que espera ter seu selo arte em breve.

Primeiro registro de Cabacinha

A queijaria é a primeira em todo o estado a obter o registro de inspeção sanitária para comercializar o “Queijo Artesanal Cabacinha do Vale do Jequitinhonha”. A Lei nº 24.379, publicada no dia 05/07, reconhece como de relevante interesse cultural o modo de fazer o queijo artesanal Cabacinha, produzido no Vale do Jequitinhonha. O objetivo, de acordo com a publicação, é valorizar bens, expressões e manifestações culturais dos diferentes grupos formadores da sociedade mineira.

*Texto da revista Profissão Queijeira

  • PRODUTOR: José Alves
  • ENDEREÇO: Av. Alcídes Gouvêia, 106 – Joaima-MG, Brasil
  • E-MAIL: j1alvessantos@outlook.com
  • INSTAGRAM: @queijocabacinha

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