Patrimônios Alimentares: queijos das serras de Minas ou de Portugal, pelo prisma do turismo

Elcione Luciana da Silva, Doutora em Patrimônios alimentares: culturas e identidades – Universidade de Coimbra e Professora substituta no Departamento de Turismo da Universidade Federal de Ouro Preto é pesquisadora da diretoria técnica da SerTãoBras. Ela revela, nessa breve entrevista, seu percurso profissional e os principais achados da sua pesquisa de doutorado, que comparou a produção de queijo artesanal em Minas Gerais e Portugal.

Ana Oliveira, produtora de queijo Serra da Estrela DOP. Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal

1. Qual a sua formação, o seu percurso profissional e quando você começou a se interessar por queijo artesanal?

Sou turismóloga formada pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e recentemente defendi minha tese de doutorado na Universidade de Coimbra, Portugal, na área de Patrimônios Alimentares: Culturas e Identidades.

Sou serrana e, desde os 16 anos, atuo nas áreas de turismo e patrimônio. Iniciei minha trajetória como condutora de turismo no município do Serro, guiando visitantes e turistas em fazendas locais. Participei como produtora local do documentário O Mineiro e o Queijo (2011), de Helvécio Ratton, que abordou as dificuldades enfrentadas pelos produtores diante da legislação da época, a qual impedia a comercialização do Queijo Minas Artesanal fora de Minas Gerais.

Entre 2008 e 2010, atuei como chefe da Divisão de Turismo de Serro, desenvolvendo projetos voltados à valorização dos modos de fazer o queijo artesanal, integrando políticas públicas de turismo e cultura. Assim, há mais de duas décadas, lido direta e indiretamente com temáticas relacionadas ao Queijo Minas Artesanal (QMA).

Festival da Fartura, no Serro-MG Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal

2. Por que você decidiu realizar um estudo comparando dois universos geograficamente distantes?

Os trânsitos culturais em Minas Gerais, especialmente de portugueses e colonos das ilhas oceânicas a partir do século XVIII, mostram que não é possível desvincular a migração das pessoas da migração de sua cultura e identidade. Esses grupos mantiveram, no novo território, padrões alimentares próximos aos de sua terra natal — e isso se aplica também a outros europeus.

Por meio de uma pesquisa diacrônica, investiguei como um alimento se integra, no tempo e no espaço, às sociedades, tornando-se um patrimônio alimentar representativo. Analisei, em Portugal, a construção da identidade alimentar relacionada ao queijo, e, investiguei como os produtores dos dois países percebem a influência do queijo artesanal e de suas práticas culturais na sustentabilidade.

Escolhi como recorte os primeiros municípios — ou microrregiões — a terem o modo de fazer o QMA reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo IPHAN no Brasil, e regiões produtoras na Serra da Estrela, em Portugal.

O objetivo central foi avaliar como o queijo e suas práticas culturais contribuem para o desenvolvimento sustentável, a partir de indicadores que contemplassem componentes socioculturais, territoriais, econômicos e ambientais. Instrumentos de mensuração do impacto da cultura na sustentabilidade ainda são escassos; por isso, propus um modelo de indicadores subjetivos, baseados na percepção dos produtores que muitas vezes são desconsiderados nesse tipo de abordagem.

Utilizando perguntas multidimensionais, entrevistei 97 produtores em três microrregiões produtoras em Minas Gerais e a partir das suas percepções, pude mensurar a contribuição do queijo artesanal para a sustentabilidade, com base em treze indicadores associados a três dimensões como:

  • Socioculturais: preservação da memória coletiva, inclusão cultural, transmissão de saberes e governança participativa.
  • Territoriais e econômicos: impacto econômico, qualidade de vida, empregabilidade, uso de recursos locais, incentivo ao turismo gastronômico e inovação.
  • Ambientais: preservação do patrimônio natural, consciência ambiental, envolvimento com o meio ambiente e governança ambiental.

O estudo demonstrou que, apesar das diferenças políticas, culturais, ambientais e econômicas, Brasil e Portugal enfrentam desafios semelhantes na apropriação do patrimônio alimentar e em sua relação com a sustentabilidade. A metodologia proposta respeita os valores e contextos de cada região e pode ser aplicada ou adaptada a outros territórios do mundo.

Concurso World Cheese Awards, em Viseu, Portugal Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal

3. Quais são as tendências do turismo no universo queijeiro brasileiro?

A gastronomia — e, neste caso, o queijo artesanal — desempenha um papel indispensável na experiência turística, sendo fator-chave na construção da imagem e da marca de um destino. Ela influencia positivamente a decisão do turista de visitá-lo.

A autenticidade, embora um conceito debatido, é central no turismo e nas experiências memoráveis relacionadas ao patrimônio alimentar. Parte dessas vivências ocorre por meio de rotas e roteiros que, além de atrair visitantes, impulsionam o desenvolvimento econômico e valorizam o patrimônio alimentar, sobretudo em áreas rurais.

Alguns destinos contam com atrativos significativos, como áreas de preservação ambiental próximas às regiões produtoras, conjuntos arquitetônicos tombados, recursos naturais, paisagens exuberantes e a possibilidade de interação com o modo de vida rural. O turismo criativo permite ao visitante participar de oficinas, vivências e trocas de saberes com a comunidade local.

Entretanto, minha pesquisa revelou que a principal barreira para a integração entre produção queijeira e turismo é a dificuldade de alguns produtores de queijo conciliarem essa atividade com a produção. Isso pode dificultar o aproveitamento pleno do potencial turístico, que inclui a venda direta do queijo genuíno e a oferta de experiências rurais, agregando renda advinda das visitações turísticas.

Ainda assim, o cenário é promissor. O reconhecimento dos modos de fazer o queijo Minas Artesanal como Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO abre novas oportunidades. Iniciativas recentes, como a Rota do Queijo do Serro e a Rota do Queijo Canastra, são exemplos de ações que podem fortalecer o vínculo entre turismo e um patrimônio alimentar tão emblemático em Minas Gerais como é o caso do queijo artesanal, que é um alimento com um valor sociocultural agregado.

Elcione com produtoras da Serra da Estrela, em Portugal Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal
Elcione entrevista Jorge Simões, produtor do Serro Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal

4. Quais foram os principais achados da sua pesquisa?

Após quase sete anos de investigação, destaco alguns pontos:

  • Desde a Antiguidade, a alimentação foi vista não apenas como fonte de sustento, mas também como recurso terapêutico. Alguns registros em tratados médicos baseados nos preceitos médicos da Antiguidade revelaram que o queijo era considerado alimento-medicamento, recomendado ou evitado conforme suas características e efeitos no organismo. Como por exemplo, o queijo (a depender da sua caracteristica), era recomendado para casos como “a inflamação do estômago e doentes tuberculosos”, dentre outras enfermidades.
  • Pesquisas sobre a origem do Queijo Minas Artesanal precisam ser reperspetivadas, pois muitas não consideram aspectos como dinâmicas socioculturais, fluxos migratórios, peculiaridades regionais e fatores econômicos que podem romper tradições alimentares. Documentos oficiais como o registro dos modos de fazer o queijo artesanal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, pelo IPHAN, precisam ser readequados frente às novas pesquisas.
  • O aproveitamento do queijo pelo turismo está diretamente ligado aos problemas estruturais que se apresentam em cada região e, portanto, os recursos atratores, considerados por Ritchie & Crouch (2003) como os mais importantes para a competividade turística, por si só, podem não ser suficientes para determinar o sucesso da implementação da atividade no destino. Exemplificamos, o caso de um dos municípios que compõe uma microrregião produtora de queijo, que embora, possua múltiplas atrações, não consegue transformá-las em benefícios econômicos, considerando que a ausência de outros fatores exerce influência neste território (determinantes qualificadores e amplificadores como localização, laços de mercado etc.), atestando para a necessidade de melhorias neste quesito. O estudo enfatiza que o marketing associado a determinantes qualificadores e amplificadores, no contexto mineiro, são importantes para o aumento da competitividade turistica.
  • As práticas e sistemas alimentares tradicionais são fundamentais para a sustentabilidade cultural e biológica, alinhando-se aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS 2030). Entre os indicadores pesquisados, preservação da memória coletiva, empregabilidade e preservação ambiental tiveram destaque em ambos os países. Em Minas, desafios envolvem inclusão cultural e governança participativa, enquanto, na Serra da Estrela em Portugal, a preocupação está relacionada à sucessão geracional, devido ao envelhecimento da população e ao êxodo dos jovens. No campo econômico, o queijo se apresenta como oportunidade de geração de renda, no entanto, a produção exige altos investimentos, criando tensão entre tradição e viabilidade econômica, agravada por concorrência industrial e desconhecimento dos benefícios da aquisição de alimentos com valores socioculturalmente agregados. No entanto, é importante destacar as práticas resilientes da produção das microrregiões no contexto pandêmico, que exigiram esforços para minimizar os impactos de seus efeitos na produção e comercialização do queijo. Quanto ao turismo, se apresentaram como importantes iniciativas em ambos os cenários, os esforços empreendidos por instituições públicas/privadas, entre 2023 a 2024, para a criação de rotas gastronômicas em espaços rurais, como a Rota do queijo do Serro e Rota do queijo da Canastra em Minas Gerais e Rota Turística e Gastronômica do Queijo do Centro em Portugal. O turismo que surge como potencial aliado, no entanto, ainda é pouco explorado na promoção do desenvolvimento local. Em Minas Gerais, observamos índices mais preocupantes nas áreas de inovação e incentivo ao turismo gastronômico (D2), especialmente na Serra do Salitre. Questões ambientais também afetam a produção: em Minas Gerais, a mineração compromete paisagens e práticas culturais. Já na Serra da Estrela (Portugal), incêndios ocasionam a perda do rebanho e de recursos naturais essenciais. Por fim as práticas culturais do fabrico do queijo contribuem para atestar o impacto da cultura nas reflexões sobre a sustentabilidade. No entanto, alguns desafios devem ser superados para garantir um desenvolvimento sustentável que seja inclusivo socioculturalmente, viável economicamente e ambientalmente equilibrado.
Rota de transumância em Portugal Foto: Elcione Silva/Acervo Pessoal

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