Valorizar é Preciso

17 de Outubro, Dia Internacional de Valorização de Queijos de Leite Cru

Por Regina Sugayama*

Fernando Pessoa, um dos maiores escritores da Língua Portuguesa valeu-se de uma “frase gloriosa” da época das Grandes Navegações para escrever seu manifesto: fazer de seu corpo e de sua alma o combustível para, através de sua arte, contribuir para o crescimento de sua pátria e, em última instância, de toda a humanidade. Lembrei de seus versos enquanto construía este texto e voltava no tempo para reviver a minha relação com o queijo. 

Nasci numa família de classe média em 1971 no interior de São Paulo e o único queijo ao qual tinha acesso era a muçarela. E, por odiá-la, vivi décadas acreditando que todo queijo era ruim. Para mim, nada poderia ser mais repugnante do que pizza de quatro queijos. Não, aquilo não tinha sentido nem razoabilidade. Menos sentido ainda tinham as anedotas sobre a paixão do mineiro pelo queijo que eu escutava, contadas por uma das mentes mais brilhantes da Ciência brasileira, o mineiríssimo professor Evaldo Vilela. Ele tinha um repertório infinito que divertia a todos e intrigava a mim. Afinal, será que queijo era mesmo algo tão bom? Será que eu estava perdendo algo? Ou será que aquelas anedotas eram apenas bobice de mineiro? 

Em 2008, quis uma sequência de acasos que eu viesse morar em Belo Horizonte, a convite do meu ilustre professor, na época, Secretário de Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Ele me contratou para executar um projeto nacional sobre Defesa Agropecuária e, entre os temas, lá estava ele, o queijo de leite cru. Tratei o assunto sob o ângulo regulatório, organizei reuniões, escrevi agendas de trabalho, defendi posicionamentos… mas tomada por uma ignorância cega e muito preconceito, sequer tive a iniciativa de experimentar o famoso queijo mineiro. De leite cru? Menos ainda. 

Foram anos trabalhando em projetos estruturadores com o Governo de Minas Gerais, Governo Federal e o setor privado, sempre ligados a questões sanitárias e regulatórias. Acho até que eu era feliz vivendo em aeroportos, com uma agenda atribulada resolvendo problemas que sequer eram meus. Mas no meu 44o aniversário, recebi um presente inesperado: meu corpo pedindo um basta. Das duas opções que a médica me ofereceu, apenas uma era aceitável: mudar a minha vida. A outra era tomar medicamentos e eu não queria isso. 

Troquei a agitação dos aeroportos pela quietude de uma cozinha, virei produtora de geleias artesanais e comecei a participar de feiras de Gastronomia. Dia desses, estava numa edição do Projeto Aproxima e avistei a barraca de queijos do Serro. Fiquei maravilhada. Eu sabia que estava diante de uma obra de arte e não de algo produzido em escala industrial. O que era aquela casca? O que era aquele aroma? Não, eu nunca havia visto nem comido nada igual e então entendi o motivo das tantas anedotas de mineiro. Elas eram plenamente justificáveis.

Em uma fração de segundo, virei defensora dos queijos de leite cru e comecei a conviver de perto com a “queijosfera”. Produtores se tornaram amigos. Lojas de queijos artesanais viraram parceiras de negócio. Minhas geleias começaram a se espalhar sobre queijos na mesma velocidade em que eu aprendia sobre essa iguaria. A geladeira de minha casa se encheu de queijos das mais variadas origens e estilos, como numa tentativa de recuperar o tempo perdido.

Queijos e geleias são uma combinação perfeita. Na foto, queijo da Queijaria La Porta e geleia de Laranja com Cachaça (arquivo pessoal).

Nas visitas e conversas, um nome começou a aparecer de maneira recorrente: Débora Pereira, da SertãoBras. Segundo os produtores que conheci à época na Serra da Canastra, ela era uma sumidade e estava fazendo um trabalho fenomenal de valorização do queijo artesanal brasileiro, abrindo portas inclusive fora do país. Por tudo o que me contaram, decidi me associar à SertãoBras e em 2024, observei o trabalho da Débora durante o Mundial do Queijo e me sensibilizei com a dedicação dessa mulher carregando um peso imenso sem se curvar a qualquer dificuldade. Vi nela os versos de Fernando Pessoa materializados – uma pessoa dedicando seu corpo e sua alma para fazer grande o queijo brasileiro. Apesar do tamanho do Mundial do Queijo, ficou evidente para mim que a equipe da SertãoBras era reduzida e me voluntariei para ajudar na edição seguinte.   

Meses antes do evento, houve troca na Diretoria e outras duas mulheres assumiram o comando da SertãoBras: Cláudia Mendonça Camargo e Daniele Freitas, que chegaram com toda a disposição para mostrar seu trabalho e contribuir para o crescimento e reconhecimento do queijo brasileiro. Nossos caminhos já haviam se cruzado anteriormente e eu tinha plena certeza de que elas, assim como a Débora, fariam tudo pelo fortalecimento da SertãoBras e dos queijos brasileiros. No início de sua gestão, elas buscaram ampliar a equipe de apaixonados pela causa queijeira no Brasil e, novamente, me ofereci para colaborar no que estivesse ao meu alcance. 

Elas acharam que eu poderia contribuir escrevendo e foi assim que uma paulista que detestou queijo por mais de 40 anos tornou-se uma das editoras do blog de uma associação de queijeiros, queijistas e queijólatras. Felizmente e naturalmente, não farei isso sozinha, pois as novas diretoras fizeram um trabalho intenso nos bastidores conversando com pessoas que queiram integrar seu comitê editorial para, assim, mostrar ao mundo o queijo brasileiro de leite cru em todas as suas dimensões: técnica, regulatória, histórica, gastronômica e, principalmente, humana. Cerca de 15 profissionais estão a postos para compartilhar voluntariamente suas ideias no novo blog da SertãoBras. 

Nas próximas postagens, você vai conhecer esse time de peso que, através de tecnologias de comunicação digital, propõe-se a levar o trabalho e a arte de quem faz do queijo a sua arte e para mostrar que, parafraseando Fernando Pessoa, “Valorizar é preciso; Viver não é preciso”. Este é o nosso manifesto e nossa forma de convidar você a valorizar os queijos de leite cru neste 17 de outubro.

*Bióloga, Mestre e Doutora pela USP. Possui 20 anos de experiência em consultoria internacional em Alimentos e Agricultura, atuando principalmente em temas ligados à Inovação e Regulamentação. Atualmente, é produtora artesanal de geleias e chás na Deli Chat.

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