Por Maike Motanhini*
A história da queijaria brasileira foi construída a partir de diferentes influências culturais e tecnológicas. Imigrantes trouxeram conhecimentos e técnicas de fabricação que, ao longo do tempo, foram adaptados às condições encontradas no Brasil. As características do leite, os recursos disponíveis, os equipamentos, as condições de produção e os hábitos alimentares locais influenciaram essas adaptações, contribuindo para o desenvolvimento de produtos com características próprias.
Essa trajetória está presente em queijos como o Queijo Minas Artesanal, o queijo do Reino, o queijo Prato, o queijo de coalho, o queijo de manteiga e o queijo colonial, além dos queijos do Marajó e de outros queijos tradicionais brasileiros. São produtos associados a diferentes regiões, histórias e práticas de fabricação, que expressam a diversidade da produção nacional. Alguns estão vinculados a tradições transmitidas entre gerações; outros resultam da adaptação de conhecimentos e tecnologias às condições específicas de produção.
Apesar dessa diversidade, boa parte dos queijos comercializados no Brasil ainda é identificada por referência a variedades de outros países. Queijos tipo Gouda, tipo Gruyère, tipo Gorgonzola e tipo Parmesão fazem parte do vocabulário habitual do setor. Essa prática está relacionada à influência histórica de outras tradições queijeiras, mas também à maneira como os produtos foram classificados, registrados e conhecidos pelo consumidor brasileiro.
Da inspiração estrangeira à construção de uma identidade própria
Durante décadas, o desenvolvimento da queijaria brasileira esteve associado à produção de queijos inspirados em variedades internacionalmente conhecidas. Essa influência contribuiu para ampliar a diversidade de produtos disponíveis no mercado nacional. Entretanto, as tecnologias incorporadas de outras tradições foram adaptadas não apenas às condições de produção brasileiras, mas também às exigências regulatórias e às preferências do consumidor nacional.
Apesar dessas transformações, muitos desses queijos continuam sendo comercializados com a denominação “tipo”, seguida do nome da variedade que serviu de referência. Essa identificação mantém uma associação direta com o produto estrangeiro, mas nem sempre evidencia a trajetória de adaptação e desenvolvimento que deu origem ao queijo brasileiro.
Não se trata de desvalorizar as influências estrangeiras, tampouco de negar a importância do conhecimento tecnológico desenvolvido em outros países. Essas referências fazem parte da história da queijaria brasileira. O ponto central é reconhecer que a incorporação de uma tecnologia a outra realidade produtiva pode gerar produtos com identidade própria.
Por isso, reconhecer esses queijos como produtos brasileiros inspirados em outras tradições permite valorizar tanto suas referências tecnológicas quanto as adaptações realizadas ao longo de sua história. Mais do que reproduções de variedades estrangeiras, muitos deles representam uma trajetória própria de desenvolvimento da queijaria nacional.
Três dimensões da identidade queijeira brasileira
Para compreender a diversidade da produção nacional, é útil distinguir três grandes grupos de queijos, considerando sua história e seu processo de desenvolvimento.
O primeiro reúne os queijos tradicionais brasileiros, associados a práticas regionais, conhecimentos transmitidos entre gerações e contextos históricos específicos. O queijo Minas Artesanal, o Serrano, o queijo de coalho, o queijo de manteiga, o queijo colonial e os queijos do Marajó são exemplos dessa diversidade. Cada um possui uma trajetória própria, relacionada às condições de produção e às tradições das regiões em que se desenvolveu.
O segundo grupo compreende os queijos brasileiros inspirados em variedades estrangeiras. São produtos desenvolvidos a partir de tecnologias e referências de outras tradições queijeiras, mas adaptados às condições de produção brasileiras. Essas adaptações podem modificar significativamente as características do produto em relação à variedade que lhe serviu de inspiração. Reconhecer essa origem não diminui seu valor; ao contrário, permite compreender o processo de desenvolvimento e as particularidades do queijo produzido no Brasil.
Mais recentemente, o terceiro grupo abrange os queijos autorais e novos produtos, desenvolvidos por produtores brasileiros a partir de escolhas tecnológicas próprias, experimentação e definição de características particulares. Esses queijos podem incorporar conhecimentos de diferentes tradições, mas são concebidos com uma identidade de produto deliberadamente construída.
Esses grupos não são categorias jurídicas ou regulamentares, nem necessariamente excludentes. Um queijo autoral pode incorporar referências estrangeiras, assim como um queijo tradicional pode passar por mudanças tecnológicas ao longo do tempo. A classificação é uma proposta para compreender as diferentes trajetórias que compõem a queijaria nacional.
Como o sistema de registro influenciou a denominação dos queijos brasileiros
O sistema de registro de produtos lácteos também precisa ser considerado nessa discussão. Historicamente, os Regulamentos Técnicos de Identidade e Qualidade (RTIQ) estabeleceram padrões para diferentes variedades de queijos, muitos deles associados a denominações tradicionais de outros países.
Em muitas situações, os produtores precisavam enquadrar seus queijos nos RTIQs existentes, mesmo quando as características do produto não correspondiam plenamente à variedade regulamentada. A falta de alternativas adequadas para reconhecer determinados produtos podia levar ao enquadramento em categorias pré-existentes, o que facilitava o procedimento administrativo, mas não necessariamente refletia a identidade tecnológica do queijo.
Os RTIQs são instrumentos importantes para estabelecer parâmetros de identidade e qualidade, orientar a fabricação e oferecer referências para a fiscalização. A questão não está na existência desses regulamentos, mas na capacidade do sistema de reconhecer produtos com características próprias que não se enquadram adequadamente nas categorias disponíveis.
Nos últimos anos, houve maior flexibilização nas possibilidades de registro de queijos sem RTIQ específico, ampliando as alternativas para o reconhecimento de produtos que não se enquadram nas categorias tradicionais. Entretanto, a mudança regulatória não elimina uma cultura consolidada ao longo de décadas, na qual produtores e consumidores se habituaram a identificar queijos brasileiros por referência a variedades estrangeiras.
O acordo Mercosul–União Europeia: um desafio e uma oportunidade
A discussão sobre a identidade dos queijos brasileiros ganha uma nova dimensão com o Acordo de Comércio Provisório entre o Mercosul e a União Europeia, cuja aplicação provisória começou em 1º de maio de 2026.
O acordo prevê a proteção de determinadas indicações geográficas europeias e estabelece condições específicas para o uso de nomes associados a produtos originários de regiões protegidas. Para o setor queijeiro brasileiro, isso exige atenção, pois algumas denominações utilizadas no mercado nacional estão sujeitas a regras específicas.
Parte dos produtores interpreta essas mudanças principalmente como uma restrição comercial, diante da necessidade de rever denominações utilizadas há anos. A preocupação é compreensível, especialmente para empresas que construíram suas marcas e desenvolveram seus mercados com base nesses nomes.
Entretanto, limitar a discussão à perda do direito de utilizar determinadas denominações significa deixar de considerar uma oportunidade para o setor. A necessidade de rever o uso de alguns nomes pode estimular o desenvolvimento de denominações próprias e ampliar o reconhecimento dos queijos produzidos no Brasil.
Será necessária uma revisão nos mecanismos de registro atuais, capazes de reconhecer a diversidade da produção nacional e oferecer segurança jurídica aos fabricantes. O desafio está em transformar uma exigência comercial em um estímulo ao desenvolvimento e à valorização dos queijos brasileiros, sem desconsiderar as regras aplicáveis nem os investimentos realizados pelos produtores.
Construindo a identidade queijeira brasileira
O Brasil possui uma diversidade de queijos que merece ser estudada, documentada e valorizada. Parte dela está associada a tradições regionais consolidadas; outra parte é resultado da adaptação de tecnologias estrangeiras; e uma terceira está sendo construída por produtores que experimentam novas abordagens e desenvolvem produtos com características próprias.
Para que essa diversidade se transforme em reconhecimento, é necessário ampliar o conhecimento sobre os produtos, fortalecer a pesquisa, aprimorar os mecanismos de registro, desenvolver denominações adequadas e comunicar melhor as características que distinguem cada queijo.
Também é importante aproximar produtores, pesquisadores, profissionais da gastronomia e consumidores. A construção de uma cultura queijeira depende de toda essa cadeia, desde o conhecimento sobre a matéria-prima e os processos de fabricação até a capacidade de apresentar os produtos ao mercado.
Não devemos negar as influências que contribuíram para nossa história queijeira. As técnicas trazidas de outras regiões foram adaptadas, transformadas e incorporadas às condições locais, contribuindo para a formação de uma produção diversificada. Esse processo de adaptação faz parte da história de muitos queijos brasileiros e pode continuar impulsionando o desenvolvimento de novos produtos.
Mais do que encontrar novos nomes para os queijos que produzimos, precisamos criar as condições para que sejam reconhecidos por suas características, história e identidade.
O Brasil não produz apenas queijos inspirados em outras tradições. Produz queijos brasileiros, com características e trajetórias próprias. Reconhecer essa identidade é um passo importante para o futuro da nossa tradição queijeira.et, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.
*Maike Montanhini é doutora em Tecnologia de Alimentos, com 30 anos de experiência nas áreas de microbiologia, tecnologia de laticínios e desenvolvimento de produtos. É Maître Fromager pela Guilde Internationale des Fromagers e foi reconhecida pela Forbes, em 2024, na lista das 100 Doutoras do Agro. Autora do livro O Mundo dos Queijos, atua como professora e consultora no Brasil, contribuindo para a formação de profissionais e o desenvolvimento do setor queijeiro. Reside na França, onde também colabora com a revista técnica italiana Professione Casaro e escreve para diferentes canais de divulgação técnica.