Por Patrícia Roza de Souza*
A organização das queijarias, a construção de critérios comuns e a documentação da história regional são etapas fundamentais para transformar uma tradição alimentar em um projeto coletivo de reconhecimento.
Um queijo pode representar muito mais do que seu sabor

Um queijo pode ser reconhecido pela textura, pelo aroma e pelo sabor. Mas, quando está associado à história de uma região, existe algo além das características percebidas durante a degustação: a relação entre o produto, as pessoas que o fabricam e o território em que essa tradição se desenvolveu.
Na Serra Gaúcha, a construção da Indicação Geográfica (IG) do Queijo Colonial coloca essa relação no centro da discussão. O desafio não consiste apenas em identificar um produto tradicional. É necessário compreender sua trajetória, reunir informações sobre a produção e demonstrar o vínculo entre o queijo e o território que se pretende reconhecer.
Em entrevista, Danilo Cavalcanti Gomes, Médico Veterinário Coordenador do Projeto de Indicação Geográfica do Queijo Colonial da Serra Gaúcha, Seapi/RS destacou a importância da organização dos produtores nesse processo. A criação formal de uma associação permite reunir as queijarias em torno de interesses comuns e construir uma representação coletiva.
Essa organização é uma etapa importante porque o reconhecimento territorial exige mais do que uma história conhecida pela comunidade. Exige documentação, critérios e mecanismos que sustentem a identidade que se pretende apresentar.
Por que uma associação é importante?
A construção de uma Indicação Geográfica envolve diferentes responsabilidades. É necessário organizar os produtores, definir o território, caracterizar o produto e estabelecer as regras aplicáveis à utilização da identificação.
A associação pode funcionar como espaço de articulação entre os participantes, permitindo que desafios individuais sejam discutidos coletivamente.
Esse trabalho também envolve a elaboração de um caderno de normas e a organização dos mecanismos de controle previstos para a indicação.
Como explicou Danilo, a entidade não deve ser compreendida apenas como uma exigência administrativa. Ela também pode representar os interesses comuns das queijarias e contribuir para a construção de soluções compartilhadas.
Esse ponto merece atenção. Quando produtores trabalham isoladamente, cada um precisa enfrentar seus desafios com os recursos disponíveis. A organização coletiva pode ampliar a capacidade de diálogo, facilitar a construção de consensos e fortalecer a representação do território.
Entretanto, a existência de uma associação não garante automaticamente a concessão da IG. O pedido precisa atender aos requisitos legais e ser avaliado pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
O desafio de definir uma identidade comum

Uma das questões mais importantes é determinar o que caracteriza o Queijo Colonial da Serra Gaúcha.
Pode parecer simples afirmar que um produto pertence a determinada tradição. Mas, quando diferentes queijarias participam do processo, surgem perguntas técnicas: quais características são compartilhadas? Que variações existem? Quais critérios devem ser adotados para representar o produto coletivo?
Na entrevista, Danilo observou que os estudos sobre a caracterização do queijo ainda estão em andamento. Há produtos com diferentes condições de frescor e maturação, o que demonstra a necessidade de investigar a diversidade antes de estabelecer uma definição definitiva.
Essa etapa precisa envolver os produtores e considerar as evidências disponíveis.
A construção de uma identidade territorial não significa necessariamente transformar todos os queijos em produtos idênticos. O desafio é definir parâmetros que representem o produto abrangido pela indicação e estabelecer quais particularidades podem ser mantidas dentro das regras coletivas.
Esse equilíbrio exige pesquisa, diálogo e decisões fundamentadas.
O que muda para os produtores?
Uma identidade territorial bem construída pode contribuir para diferenciar o produto e comunicar melhor sua origem.
Para o consumidor, a identificação geográfica pode oferecer informações sobre a procedência e os critérios aplicáveis ao produto. Para os produtores, pode representar uma oportunidade de fortalecer a apresentação comercial do queijo e ampliar sua visibilidade.
Mas é importante distinguir oportunidade de garantia.
A obtenção de uma Indicação Geográfica não assegura automaticamente melhores preços, aumento das vendas ou acesso a novos mercados. Esses resultados dependem de fatores como qualidade, distribuição, estratégia comercial, demanda e capacidade de produção.
O reconhecimento precisa ser acompanhado de ações que aproximem produtores, compradores e consumidores.
Também é fundamental que os benefícios do projeto coletivo alcancem efetivamente as queijarias participantes, contribuindo para a continuidade da atividade.
O território precisa ser demonstrado
A origem de um produto não se resume a um endereço. Ela pode reunir história, conhecimento, práticas produtivas e características relacionadas ao lugar onde o alimento se desenvolveu.
No caso do Queijo Colonial da Serra Gaúcha, compreender essa relação exige investigar o produto e documentar a trajetória da produção regional.
A associação das queijarias, os estudos técnicos e a definição de critérios são partes de um processo maior: construir uma identidade que possa ser reconhecida e sustentada por informações verificáveis.
O selo, quando concedido, representa apenas uma parte dessa história. O trabalho anterior é o que permite demonstrar por que aquele produto merece ser associado ao território.
A valorização começa, portanto, antes do reconhecimento formal. Começa quando produtores decidem organizar seus conhecimentos, compreender suas diferenças e construir juntos uma visão de futuro.

*Patrícia Roza de Souza | Colunista, Especialista em queijos, percepção sensorial e experiências de origem Fundadora da ÉQueijo Experience, atua na valorização dos queijos brasileiros, conectando conhecimento técnico, cultura alimentar, produtores e identidade territorial. Jurada de concursos de queijos nacionais e internacionais, é graduada em Administração, estudante de Medicina Veterinária e pós-graduanda em Neurociência e Comportamento. Seu trabalho investiga como os alimentos podem revelar histórias, despertar percepções e aproximar pessoas de seus territórios, ampliando o olhar sobre a gastronomia para além do consumo. Por meio da ÉQueijo Experience, desenvolve experiências sensoriais, curadorias de produtos de origem e projetos corporativos que conectam conhecimento, hospitalidade e relações humanas.
Quando um queijo chega à mesa, existe muito mais do que um alimento a ser consumido. Há uma matéria-prima, um processo de produção, decisões técnicas, conhecimentos transmitidos entre gerações e características que expressam sua origem.É a partir dessa perspectiva que desenvolvo meu trabalho com a ÉQueijo Experience: transformar a degustação em uma oportunidade de compreender os produtos, reconhecer os produtores e estabelecer conexões com os territórios. Essa abordagem também encontra espaço no universo corporativo. Quando uma experiência é cuidadosamente concebida, a gastronomia pode se tornar um ponto de partida para conversas, descobertas e encontros que vão além da mesa. Para conhecer outras histórias sobre queijos brasileiros, produtores e territórios, acompanhe a @equeijo.experience
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