Por Bruno Alexandre*
Entre as muitas opções de bebidas para acompanhar queijos, temos a cachaça. A combinação é tão promissora que já foi tema de oficinas durante o Mundial do Queijo. Além de se harmonizarem perfeitamente à mesa, queijo e cachaça partilham pontos essenciais em comum: o crescimento do entendimento do consumidor sobre produtos de terroir, a valorização da produção autoral, os concursos como espaços fundamentais de benchmarking e a busca permanente por novidades sem abrir mão da segurança dos alimentos. Soma-se a isso o notável aumento da participação feminina em todas as etapas de ambos os processos, desde o campo e a produção artesanal até a avaliação sensorial das amostras em concursos de prestígio.
A prova viva dessa busca contínua por excelência no setor alambiqueiro é a realização do III Concurso Estadual da Qualidade da Cachaça Paulista (CACHAÇA.SP), organizado pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, que reuniu mais de 140 marcas de produtores devidamente registrados no MAPA. Mais do que uma competição, o evento destaca o compromisso do setor com a padronização, a segurança jurídica e a valorização sensorial da nossa bebida de bandeira.

Inscrição Gratuita e Fomento à Legalidade
Um dos grandes acertos desse concurso é o seu caráter inclusivo e direto ao ponto: a participação é totalmente gratuita. O único requisito para colocar os rótulos na mesa dos julgadores é estar devidamente formalizado e com o registro em dia junto ao MAPA. Essa exigência funciona como um filtro saudável e um estímulo real à regularização de alambiques e marcas no estado. Sem barreiras financeiras, pequenos, médios e grandes produtores têm a oportunidade de mostrar a qualidade dos seus destilados em pé de igualdade.

Por que Fomentar o Mercado Paulista?
Fomentar a cadeia produtiva da cachaça em São Paulo vai muito além de entregar medalhas. É um trabalho que impacta diretamente:
1. A segurança do consumidor: Garantir que o produto chegue à taça rastreável, seguro e seguindo as boas práticas de fabricação.
2. A evolução técnica: O feedback sensorial do concurso serve de bússola para os produtores aprimorarem a destilação, o descanso, o envelhecimento em madeiras brasileiras e os blends.
3. A agregação de valor: Selos de reconhecimento técnico abrem portas no varejo, na alta gastronomia, em queijarias artesanais e no mercado internacional.
4. O terroir paulista: Dar luz à imensa diversidade de microclimas e perfis que fazem do estado um polo fortíssimo de produção alambiqueira e queijeira.

Quebrando o Preconceito: A Revolução Feminina nas Taças e no Júri

Amarylis Bertachini D’Angelo (@drinkcomigo)
A cachaça ganhou tanta qualidade e sofisticação que passou a conquistar um público que por muito tempo foi negligenciado pelo mercado: as mulheres.
Essa transformação fica evidente na bancada de jurados, que nesta edição ampliou de forma significativa a representatividade feminina na avaliação sensorial das amostras. É o que destaca a jornalista e sommelière Amarilis Bertachini D’Angelo (do @drinkcomigo), que participou pelo segundo ano consecutivo como jurada do concurso. Para ela, é nítida a evolução técnica dos destilados e a necessidade urgente de derrubar o mito de que mulher não bebe cachaça. Não só porque a escolha é livre — a mulher bebe o que quiser, quando e onde quiser —, mas porque a cachaça pertence, por direito, às taças de consumidoras exigentes e empoderadas que sabem apreciar um grande destilado.
Esse protagonismo dialoga diretamente com o movimento que vemos em iniciativas como o livro “Mulheres da Cachaça” (obra da qual Amarilis é uma das coautoras). Trajetórias como essa reforçam a importância de ocupar e transformar um ecossistema que por muito tempo foi visto como reduto estritamente masculino.
O futuro da gastronomia brasileira, seja no prato de queijo ou na taça de cachaça, é plural, profissional e feito por quem entende de excelência.
Referência Bibliográfica
SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Agricultura e Abastecimento. Dados oficiais, diretrizes e informações sobre o III Concurso Estadual da Qualidade da Cachaça Paulista (CACHAÇA.SP). São Paulo, 2026.

*Bruno Alexandre é farmacêutico industrial, tecnólogo em alimentos e consultor de controle de qualidade, com especialização em Engenharia Farmacêutica e Gestão de Projetos. Sommelier de gin certificado, une rigor técnico à alta gastronomia na curadoria de destilados e experiências premium. É colunista da Revista Degusta (RJ) e da Retrogusti (Itália), e atua como jurado técnico em grandes bancas do setor, como o Concurso Mundial do Queijo do Brasil 2026, o CACHAÇA.SP e o Brasil RTD Cup.
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